4# BRASIL 10.9.14

     4#1 MENSALO DA PETROBRAS
     4#2 A CARTADA DE ACIO
     4#3 "EU SOU A MUDANA SEGURA"
     4#4 EM BUSCA DOS INDECISOS
     4#5 COMO MARINA GANHA APOIOS
     4#6 A FORA DA TRAGDIA

4#1 MENSALO DA PETROBRAS
O ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa entrega  Polcia Federal detalhes e nomes de polticos da base aliada do governo envolvidos naquele que pode ser o maior escndalo de corrupo da histria da Repblica

Na noite de sexta-feira 5, a presidenta Dilma Rousseff e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, convocaram uma reunio emergencial no Palcio da Alvorada, em Braslia. O encontro, em clima de elevadssima tenso, destinou-se a discutir o depoimento  Polcia Federal do ex-diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras, Paulo Roberto Costa, considerado o principal arquivo-vivo da Repblica e detentor dos segredos da maior estatal do Pas sob o jugo petista. H poucas semanas, Costa dizia que no haveria eleies neste ano se ele revelasse tudo o que sabe. Desde a sexta-feira 29, ele comeou a cumprir sua ameaa. O teor das revelaes, vazadas at agora, em regime de delao premiada  nitroglicerina pura. To bombstico que um assessor palaciano definiu assim o estado de esprito dos petistas reunidos no Alvorada: Esto todos atnitos. A crise  sria, afirmou. O depoimento de Paulo Roberto Costa evidencia a existncia de caixa dois de campanha no financiamento de polticos aliados do governo Dilma.

O DELATOR - Paulo Roberto Costa comec?ou a depor no dia 29 na PF, em sesso?es que duraram ate? quatro horas

Segundo Costa, o PT e seus aliados montaram uma espcie de mensalo 2.0 na Petrobras. O dinheiro desviado, segundo ele, irrigava as contas de governadores, 12 senadores, do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o da Cmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e pelo menos mais 50 deputados integrantes do PMDB, PP e PT, partidos da base de apoio  presidenta Dilma Rousseff no Congresso. Tambm foi citado por Costa o ministro de Minas e Energia, Edison Lobo. Participariam do esquema os senadores Fernando Collor (PRB-AL), Jos Sarney (PMDB-AP) e a governadora do Maranho, Roseana Sarney. O deputado Cndido Vaccarezza (PT-SP), um dos pontas de lana do movimento Volta,Lula no Congresso, tambm teria sido mencionado pelo ex-diretor da Petrobras. Todo dia tinha poltico batendo na minha porta, afirmou Paulo Roberto Costa na delao premiada, com a inteno de dar a dimenso do estreito relacionamento com grandes empreiteiras e parlamentares de diversos matizes. Os polticos receberiam, segundo Costa, 3% do valor dos contratos da Petrobras exatamente no perodo em que ele comandava o setor de distribuio da estatal, entre 2004 e 2012. Ainda em seu depoimento, Paulo Roberto Costa reconheceu pela primeira vez que as empreiteiras contratadas pela Petrobras eram obrigadas a fazer doaes para um caixa paralelo que abasteceria partidos e polticos que apiam Dilma. Haveria, de acordo com ele, um cartel de empreiteiras em todas as reas da estatal. O ex-diretor da Petrobras ainda mencionou uma conta de um operador do PMDB em um banco europeu. Por causa da citao aos polticos, que detm foro privilegiado, os depoimentos sero enviados  Procuradoria Geral da Repblica. Mas os procuradores afirmam que s iro receber a papelada ao trmino da delao. A expectativa  de que novos nomes de polticos possam aparecer.

CORRUPC?A?O - Na sede da Petrobras, Costa diz que recebia pedidos dia?rios de poli?ticos e donos de empreiteiras

A rede de corrupo na Petrobras era ampla. Os desvios envolveriam desde o funcionrio do terceiro escalo at pesos pesados da cpula da empresa, durante a gesto de Paulo Roberto Costa na diretoria de Abastecimento. No se sabe ainda o montante do desvio, mas s na construo da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que custou R$ 40 bilhes e foi a obra mais cara da Petrobras tocada por Costa, o esquema criminoso movimentou pelo menos R$ 1 bilho, o que j faz deste o maior escndalo da Repblica recente. Segundo a Polcia Federal, os contratos eram superfaturados e o sobrepreo era repassado pelas empreiteiras ao doleiro Alberto Youssef. Ao doleiro, ainda de acordo com a PF, cabia a distribuio do suborno aos polticos.

Potencialmente devastador, o contedo dos depoimentos pode at alterar novamente o rumo das eleies presidenciais. Com viagem marcada para o Rio de Janeiro na sexta-feira 5, o ministro da Secretaria de Comunicao Social da Presidncia (Secom), Thomas Traumann, teve de permanecer em Braslia, a pedido da presidenta Dilma, para pilotar o desenrolar da crise. Dilma se preparava para um comcio eleitoral em Porto Alegre. Diante do novo quadro, voou s pressas para Braslia. Tambm participou do encontro no Alvorada o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardoso. Na reunio, ficou acertado que o Planalto entraria em contato com integrantes da base de sustentao de Dilma para que afinassem o discurso que seria adotado no fim de semana para rebater as acusaes. Dentro dessa estratgia, o vice-presidente da Repblica, Michel Temer reuniu-se com lideranas do PMDB de diversos estados, em So Paulo, na noite de sexta-feira 5. O temor no governo  o potencial do abalo na campanha eleitoral de Dilma faltando menos de um ms para as eleies. Os beneficirios diretos seriam, obviamente, a candidata do PSB, Marina Silva, e o do PSDB, Acio Neves. A preocupao do Planalto  de que a eleio seja liquidada no primeiro turno ou que Dilma seja alijada da segunda etapa da disputa presidencial.

ACUSADOS - Os presidentes da Ca?mara, Henrique Alves (acima), e do Senado, Renan Calheiros (abaixo) esta?o entre os parlamentares citados por Paulo Roberto Costa

Segundo a PF, os depoimentos de Paulo Roberto Costa foram longos. No primeiro dia, sexta-feira 29, a delao teria durado quatro horas. Estou exausto, mas aliviado, teria dito Costa a um advogado do Paran. As falas do ex-executivo da Petrobras foram todas filmadas numa sala da Custdia da PF em Curitiba. No final de cada dia, os depoimentos so lacrados, criptografados pelo Ministrio Pblico Federal e remetidos  Procuradoria Geral da Repblica.

O depoimento de Paulo Roberto evidencia a existe?ncia de caixa dois de campanha no financiamento de poli?ticos aliados do governo Dilma


Alvo da Operao Lava Jato, Paulo Roberto Costa resolveu abrir o bico porque estava desesperado com a possibilidade de ser condenado a mais de 30 anos de priso. O estopim foi a deciso de PF de promover buscas e apreenses em empresas de suas filhas, de seus genros e de um amigo dele no Rio de Janeiro. Numa das empresas alvo da devassa, os agentes da Polcia Federal identificaram indcios fortes de que o ex-diretor da Petrobras teria mais contas abertas fora do Pas. H trs meses, a Sua transmitiu s autoridades brasileiras que Costa e seus parentes possuam US$ 23 milhes em contas secretas naquele pas. Essa foi uma das razes que levou o juiz Srgio Moro a decretar em 11 de junho a priso do ex-diretor da Petrobras.

O DOLEIRO - Alberto Youssef, preso, era o encarregado de distribuir a propina para poli?ticos

Um dos negcios mencionados por Costa envolvendo Renan Calheiros  a combinao feita com o doleiro Alberto Yousseff para que o Postalis, fundo de penso dos Correios, comprasse R$ 50 milhes em debntures emitidos pela agncia Marsan Viagens e Turismo. Yousseff, segundo investigao da PF, era um dos investidores dessa agncia. O doleiro teria encontrado Renan em Braslia, em maro deste ano, para tratar da comisso que caberia ao PMDB no negcio. A transao, porm, no teria ocorrido por causa da inesperada priso da dupla Yousseff e Paulo Roberto Costa. Mas o esquema estava armado. O fundo de penso Postalis  controlado por PMDB e PT desde o incio do governo petista. Um notrio apadrinhado de Renan, o presidente da Transpetro, Srgio Machado, tambm mantinha estreita relao com Paulo Roberto Costa, segundo as investigaes da PF. O nome de Machado aparecia por quatro vezes em anotaes na agenda do ex-executivo da estatal. Prximo ao nmero de celular do presidente da Transpetro, aparecia uma meno a curso c/Srgio Machado, 5%, ao lado do valor R$ 5 mil e da inscrio dois meses.

NO MINISTE?RIO - O ex-diretor da Petrobras envolve tambe?m o ministro das Minas e Energia, Edison Loba?o

Reportagem de ISTO havia antecipado em abril deste ano que o esquema de Yousseff e Paulo Roberto Costa operava nos Correios. O elo entre o doleiro e a estatal seria a JN Rent a Car, cujo nome fantasia  Renacar. Esta empresa de aluguel de carros, sediada em Londrina (PR) e pouco conhecida no mercado, embolsou, em oito anos, mais de R$ 77,5 milhes em contratos com os Correios. No inqurito da PF, a JN aparece fazendo transaes financeiras com a MO Consultoria, do doleiro Youssef. De 2005 at 2013, a locadora de veculos multiplicou seus ganhos nos Correios em at 20 vezes, com a ampliao e renovao automtica de contratos que receberam nada menos que dez aditivos. O proprietrio da JN Rent a Car  uma figura conhecida do meio poltico e policial: trata-se de Assad Jannani, irmo e um dos testas de ferro do ex-deputado Jos Janene (PP), ru do mensalo que morreu em 2010 de enfarte e que era um dos parlamentares mais prximos de Youssef. Agora, um novo elo com a estatal  confirmado, desta vez por intermdio de Renan.

Segundo o ex-diretor da Petrobras, havia um cartel de empreiteiras em todas as reas da estatal. Elas utilizavam um operador do PMDB que tinha uma conta num banco europeu

CAMPANHA - Dilma com Lula e Loba?o nos tempos em que era ministra: esca?ndalo deve virar arma da oposic?a?o contra a presidenta

Paulo Roberto Costa entrou na Petrobras em 2003 pelas mos do ex-presidente Lula. Paulinho, como era conhecido, era considerado uma das pessoas mais prximas do ex-presidente da estatal Jos Srgio Gabrielli. Delao premiada ou colaborao com a Justia  a figura jurdica que prev a reduo de pena quando um ru fornece informaes que possam esclarecer outros crimes. O acordo de Paulo Roberto Costa com a PF prev que ele seja colocado em liberdade to logo encerre os depoimentos. O trato precisa ser chancelado pelo Supremo Tribunal Federal, em processo que tem como relator o ministro Teori Zavaski. Confirmado o acerto, depois de solto, ele ficar um ano, em sua casa no Rio de Janeiro, usando uma tornozeleira eletrnica, sem pode sair para a rua. At duas semanas atrs, o ex-executivo reclamava que estava sendo submetido a regime disciplinar muito rigoroso nas dependncia da PF em Curitiba. Depois que comeou a fazer suas revelaes, o tratamento ficou mais brando. 

O doleiro Youssef teria um encontro com Renan Calheiros para tratar de uma negociac?a?o nos correios

PT ATINGIDO - Deputado Ca?ndido Vacarezza teria sido um dos beneficia?rios do esquema de corrupc?a?o na Petrobras


4#2 A CARTADA DE ACIO
Na eleio mais imprevisvel desde o fim da ditadura, o candidato do PSDB  Presidncia mostra seu plano para virar o jogo e chegar ao segundo turno, convencendo o eleitorado de que tem a melhor estratgia para conduzir o pas

Srgio Pardellas (sergiopardellas@istoe.com.br)

Mineiro como o candidato do PSDB  Presidncia, Acio Neves, o expresidente da Cmara e tetraneto do patriarca da Independncia, Jos Bonifcio de Andrada, costumava repetir pelos corredores do poder em Braslia: A combinao entre o fato novo e o fato consumado embalou as maiores reviravoltas da histria. Numa ofensiva a menos de um ms das eleies presidenciais, Acio se dedica a impedir a consumao dessa alquimia poltica, que levaria Marina Silva (PSB), o grande fato novo da disputa eleitoral, para o segundo turno. Em caminhadas pelas ruas do Pas, o tucano demonstra otimismo, mesmo diante do cenrio desfavorvel das pesquisas, e insiste que o fenmeno Marina ainda no  um fato consumado. Nos debates e em entrevista  ISTO concedida na quartafeira 3, Acio adotou o mantra: Estarei no segundo turno. O desejo de mudana ir prevalecer. Quem concorrer contra Dilma vence as eleies. E ns temos o time mais qualificado, afirmou.

CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA DE ACIO NEVES

A tarefa no  simples. Mas, tratandose de uma eleio marcada pelo impondervel,  prudente no arriscar prognsticos definitivos. Quem ousou fazer vaticnios intempestivos se estrepou mais adiante. Foi o caso do marqueteiro de Dilma, Joo Santana. Segundo ele, a presidenta seria reeleita no primeiro turno devido a um fenmeno denominado por ele de antropofagia de anes. Atualmente, so remotssimas  quase nulas  as chances de Dilma liquidar as eleies no primeiro turno. Nem o mais abnegado militante petista leva f nessa varivel. Ou seja, alm de ofensiva aos concorrentes, a declarao emitida no ano passado por Joo Santana revelouse uma precipitao. No meio poltico, todos concordam que o tucano vive a situao mais delicada desde o incio da prcampanha. Mas quem descartaria com 100% de convico uma nova mudana na eleio mais imprevisvel desde o fim da ditadura?

Na tentativa de virar o jogo eleitoral, Acio promoveu uma inflexo na campanha. As novas diretrizes foram ditadas em reunio, na semana passada em So Paulo, com a participao do marqueteiro do PSDB, Paulo Vasconcelos, da equipe de comunicao do candidato e do staff poltico. No encontro realizado no comit do PSDB instalado na capital paulista, decidiuse subir o tom contra Marina Silva, reforar o discurso da mudana com segurana, mobilizar as bases e lideranas polticas e intensificar o corpo a corpo com o eleitorado em So Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro  os trs maiores colgios eleitorais do Pas. Segundo as ltimas pesquisas, Marina disparou no Rio, tomou a dianteira em So Paulo e encostou em Acio em seu reduto eleitoral. Em So Paulo, os tucanos assistiam impassveis at a semana passada ao crescimento do voto apelidado de Geraldina  Geraldo Alckmin para governador e Marina para presidente. Segundo recentes levantamentos, 43% dos eleitores de Alckmin dizem votar na candidata do PSB. O fenmeno lembra o ocorrido em 2006, em Minas, s que em benefcio de Acio. Consistiu no voto conhecido como Lulcio (Lula presidente, Acio governador). Para recuperar o terreno perdido em So Paulo, o candidato do PSDB ao Planalto acertou com o expresidente Fernando Henrique Cardoso a ampliao de sua participao na campanha. Na avaliao dos estrategistas tucanos, FHC imprime uma marca de credibilidade  candidatura, no momento em que Acio quer se distinguir de Marina apresentandose como a opo da mudana com segurana. No por acaso, FHC concedeu entrevista coletiva ao lado de Acio na terafeira 2 no comit tucano. Por que foi possvel domar a inflao? Porque tinha uma equipe. Eu no sou economista. Mas tinha capacidade de juntar um time. No se governa sozinho, salientou FHC. Acio simboliza a competncia e a experincia para poder governar, acrescentou.

NOVA ESTRATGIA - Em So Paulo, Acio Neves intensificar as caminhadas ao lado de Geraldo Alckmin, em primeiro no Estado. FHC (abaixo) aumentar sua participao na campanha

No Rio, a aposta de Acio para voltar a crescer  intensificar as viagens ao Estado. Em Minas, o PSDB passar a defender o legado do senador e exgovernador mineiro. O sentimento entre os tucanos mineiros  de que a equipe de comunicao da campanha nacional equivocouse ao formular propostas de forma genrica, esquecendose de regionalizlas. Um dos efeitos dessa estratgia malsucedida seria um distanciamento dos eleitores do discurso de Acio. Houve uma passividade. A nossa campanha no foi na linha correta, mas o erro j est sendo corrigido, reconheceu Marcus Pestana, presidente do PSDB de Minas Gerais.

Convencido de que a presidenta Dilma Rousseff perde a eleio para qualquer adversrio no segundo turno, Acio vai passar as prximas semanas tentando convencer o eleitor que para mudar o Pas no basta apear o PT do Palcio do Planalto. A mudana comea no dia da posse do novo presidente e no no dia da eleio, prega o tucano. Ns temos as melhores propostas para o futuro do Brasil e vamos mostrar isso s pessoas, afirma. Acio concorda com a imprevisibilidade do pleito.  a marca indelvel desta eleio presidencial. Para o senador mineiro, uma das poucas certezas em relao ao eleitorado  o desejo de mudana. Outra,  que ela estar consagrada a partir do dia 1 de janeiro de 2015.


4#3 "EU SOU A MUDANA SEGURA"
Em entrevista aos editores da ISTO, o candidato do PSDB  presidncia, Acio Neves, apresenta suas propostas e diz acreditar que, at o dia da eleio, o brasileiro entender que ele  o mais preparado para mudar o Pas

O estado de nimo de Acio Neves, ao chegar para a entrevista com os editores da revista ISTO, lembrava o do incio da campanha. Como se nada ou muito pouco tivesse mudado de l para c. Apesar de atravessar um momento eleitoral delicado, o candidato do PSDB  Presidncia, imbudo de um otimismo indmito, se mostrou o tempo todo convicto da reverso do quadro atual, o que, em sua avaliao, lhe permitir chegar ao segundo turno das eleies.

DEBATE DE IDEIAS:
 Os entrevistadores (da esq. para a dir.): Carlos Jos Marques, diretor editorial; Mrio Simas Filho, diretor de redao da ISTO; Gisele Vitria, diretora de redao da revista Gente; Ricardo Boechat, colunista da ISTO; Delmo Moreira, redatorchefe da ISTO; Clayton Netz, redatorchefe da revista Dinheiro; Milton Gamez, diretor de redao da revista Dinheiro; Luiz Fernando S, diretor editorialadjunto; e  Caco Alzugaray, presidente executivo da Editora Trs

ISTO   evidente o desejo de mudana do brasileiro, exposto desde o ano passado nas manifestaes de rua. O que o seu governo trar de novo para o Pas?
 Acio Neves  A primeira  uma mudana tica, de valores. Talvez essa seja a mais perversa das heranas que esse governo nos deixar: a baixa qualidade das relaes polticas e o absurdo aparelhamento da mquina pblica para servir a interesses que no so os dos brasileiros, so de grupos polticos que convivem dentro do governo. A segunda  uma mudana de viso do Estado. Eu pratiquei isso durante toda a minha vida. Entendo que o Estado no tem que ser ineficiente por ser Estado. O setor pblico no precisa necessariamente apresentar maus resultados apenas por ser pblico. Acho que essa  uma mudana profunda que o Brasil precisa viver, qualquer que seja o prximo governante.

ISTO  Como se faz isso?
 Acio  Promovendo o resgate da meritocracia, de um governo que funcione, tenha metas, apresente resultados. Hoje vemos uma desqualificao cada vez maior dos servios pblicos. A terceira mudana  uma nova viso de mundo. O Brasil se isolou por uma viso absolutamente equivocada desse governo, que promoveu um alinhamento ideolgico da poltica externa sem que isso trouxesse qualquer benefcio ao Pas. O mundo avana em acordos bilaterais. O governo do PT, no entanto, celebrou apenas trs acordos bilaterais: com Egito, Israel e Palestina, o que no teve qualquer consequncia objetiva no fortalecimento da nossa economia, na ampliao de mercados para os nossos produtos. O sentimento de mudana hoje  to avassalador na sociedade brasileira que at o governo do PT quer mudar.

ISTO  A governabilidade tem sido garantida com alianas que levam ao tradicional toma l d c. Como no cair nessa armadilha? 
 Acio   possvel estabelecer uma relao poltica fora dessa mercantilizao. As negociaes sempre existiram, espaos de poder compartilhado sempre existiram. Mas o PT amesquinhou essa relao. Diretorias de bancos, ministrios distribudos em funo, por exemplo, de alguns segundos a mais na propaganda eleitoral. Eu ainda sou parlamentar, presidi a Cmara e constru alianas em torno de projetos.  isso que o Brasil precisa voltar a viver. Defendo que no incio do prximo governo se faa uma reforma poltica. Precisamos resgatar a clusula de barreira ou acabar com as coligaes proporcionais.  impossvel fazer as reformas que o Brasil precisa com mais de 20 partidos j funcionando no Congresso e outros 20 se preparando para chegar l. Defendo, alm do voto distrital misto, o fim da reeleio, mandato de cinco anos para todos os cargos pblicos e coincidncia das eleies.

ISTO  O sr. cortar impostos?
 Acio  Eu falo da simplificao do sistema tributrio como uma medida emergencial para ser iniciada no primeiro dia de governo. No seria correto dizer que ns temos condies hoje de fazer uma reforma tributria que aponte na diminuio horizontal da carga tributria. Isso s vai acontecer no momento em que encaixarmos o crescimento dos gastos correntes com o crescimento da economia. Enquanto os gastos correntes crescerem o dobro do que cresce o PIB, voc no tem espao fiscal para fazer a diminuio da carga. Mas a simplificao  possvel, sim.

ISTO  De que modo?
 Acio  O conjunto das empresas privadas no Brasil hoje gasta R$ 40 bilhes anualmente para pagar imposto. Isso para manter a mquina pagadora, no para pagar o imposto. Simplificar isso  essencial.

ISTO  Como o sr. pretende gerar empregos? 
 Acio  Emprego voc no pode olhar a fotografia, voc tem de olhar o filme. O Ministrio do Trabalho mostra que julho foi o pior do sculo, junho foi o pior junho dos ltimos dez anos e maio a mesma coisa. De gerao de vagas e carteira assinada. O mercado est encolhendo. Pas que no cresce no gera emprego. S tem um caminho para recuperar a gerao de empregos, que  o caminho do crescimento.

ISTO  Mas o governo no cansa de registrar que o Pas vive quase uma situao de pleno emprego.
 Acio  O Brasil vem se transformando no Pas do pleno emprego de dois salrios mnimos. Essa  a realidade. Ns perdemos j 1,2 milho de postos de trabalho acima de trs salrios mnimos nos ltimos quatro anos. Por qu? Porque o Pas se desindustrializou. Ns temos uma indstria que participa hoje de 13% do PIB, o mesmo que na poca do Juscelino Kubistcheck. Resgatar os empregos de qualidade  essencial.

ISTO  H correes a fazer na taxa de cmbio?
 Acio  O que existe hoje  populismo cambial. O governo perdeu a guerra contra a inflao e ento se utiliza desse populismo cambial, como se utiliza da Petrobras. Inflao  cenrio,  expectativa. Se voc sabe que h preos represados hoje, como ns sabemos que h, obviamente voc age porque em algum momento sabe que essa tampa da panela de presso vai ter que sair. A inflao nos alimentos h mais de um ano est em dois dgitos, em todas as regies metropolitanas do Pas.

ISTO  Os nmeros oficiais esto maquiados?
 Acio  Claramente maquiados. Ns estamos com preos represados nos combustveis e na rea de energia. Em um determinado momento essa tampa ter de soltar.

ISTO  O sr. pretende mudar a atuao do BNDES? 
 Acio  Eu acho que essa poltica do BNDES de escolha dos amigos do rei fracassou. O Brasil parou de crescer. Eu quero juros do BNDES para toda a economia. Nossa eleio sinaliza para uma poltica fiscal transparente, com previsibilidade, sem o intervencionismo absurdo que marca o atual governo. Precisamos resgatar as agncias reguladoras como instrumentos da sociedade brasileira e de garantia queles que querem investir no Brasil. Nossa eleio vai criar, inclusive no perodo entre a eleio e a prposse, um ambiente oposto quele que ns assistimos em 2002, quando veio o efeito Lula e houve a desorganizao da economia.

ISTO  Por que o sr. j apresentou seu ministro da Fazenda?
 Acio  Quando eu anuncio que, se eleito, nomearei o Armnio Fraga como ministro da Fazenda, estou dando a sinalizao clara na direo que o Pas vai.  muito cmodo voc ouvir candidatos dizer ah, eu vou governar com os melhores... Quem  que vai governar com os piores, n? No existe isso...

ISTO  Para quais ministrios o sr. far indicaes tcnicas, sem negociar com a sua base partidria?
 Acio  Vamos ter alguma coisa em torno da metade dos atuais ministrios, o que no quer dizer que as aes conduzidas pelas pastas que sero extintas tero menor importncia. Teremos, por exemplo, um grande Ministrio da Infraestrutura.

ISTO  Comandado por um empresrio?
 Acio  Terei um nome qualificado, experiente, para tocar um conjunto de investimentos que o Brasil precisa fazer, com experincias em parcerias com o setor privado, que gere confiana no mercado, porque os grandes gargalos de infraestrutura que o Brasil precisa superar no vo ser feitos pelo governo solitariamente. Tambm teremos um superministrio da Agricultura. Esse nome tambm no deixarei na cota da negociao, da diviso de espao. Fazenda e Planejamento so a mesma coisa. Citei dois ou trs aqui que eu acho que sero de escolha direta e pessoal do presidente da Repblica.

ISTO  O sr.  favorvel  profissionalizao para a direo de bancos e empresas estatais? 
 Acio  O setor pblico ser profissionalizado. Estaro na direo dos bancos e das empresas pblicas pessoas que o mercado conhea. Precisamos de pessoas absolutamente qualificadas fora de qualquer ingerncia poltica. No caso das empresas pblicas, em especial Petrobras e Eletrobras, ns vamos  reestatizlas. Sempre fomos acusados de sermos privatistas, at levianamente em vsperas de eleies. Mas nunca esteve no radar do PSDB privatizar Petrobrs, Banco do Brasil. O que eu quero  tirar as estatis dessa submisso a um projeto de poder e entreglas  sociedade brasileira com gesto absolutamente profissional. A Petrobras no vai ser instrumento de poltica econmica, de controle inflacionrio.

ISTO  Armnio Fraga tem dito que ser necessrio um ajuste fiscal logo no primeiro ano de governo. Ao mesmo tempo, o sr. promete a ampliao dos gastos sociais. Como fecha essa conta?
 Acio  Ns no vamos enganar ningum. Vamos buscar sempre alcanar um supervit. Mas no estamos ainda com o controle dos nmeros da mquina. O certo  que no vamos fazer como o atual governo, que vem fraudando, maquiando nmeros. Em relao aos gastos sociais, ns vamos qualificlos. O que est dando certo, o que d resultado, ser mantido. Hoje tem gente paga pela campanha do PT andando de nibus pelo Nordeste brasileiro para dizer que, se o Acio ganhar a eleio, vai acabar o Bolsa Famlia. O Bolsa Famlia custa R$ 25 milhes,  0,5% do PIB, no  algo que interfira nesse equilbrio fiscal que ns precisamos manter. Se eu vencer as eleies, no farei um governo de planos mirabolantes, sustos no mercado. Vai ser um governo de previsibilidade. Uma poltica fiscal absolutamente transparente  que vai permitir resgatarmos a capacidade de a economia crescer sem sustos. Agora, essa poltica de desoneraes que o governo vem fazendo, sem efeitos prticos, e privilegiando determinados setores da economia tem de acabar.

ISTO  O sr. manter a reduo do IPI dos automveis? 
 Acio  No deu certo. At aqui no trouxe o efeito de crescimento da economia que o governo julgava que poderia vir.

ISTO  O sr. est em campanha desde a derrota do PSDB na eleio passada. Por que acha que no tem conseguido convencer o eleitor, a se julgar pelo que mostram as pesquisas? Qual  a dificuldade? 
 Acio  Olha, ns estamos tendo uma nova eleio, o fato  este. Tnhamos uma perspectiva e uma estratgia que se interrompeu com a morte do Eduardo Campos. At ento havia um cenrio que sinalizava que ns estvamos no segundo turno e faramos o embate com o governo que est a. Vem a Marina,  uma nova eleio. E ns temos de nos adaptar a essa nova estratgia. No estou dizendo que seja simples, mas eu tenho muita confiana de que a nossa proposta vai ser compreendida, na hora da deciso, como a melhor para o Brasil. A mudana que o eleitor quer no se d no dia da eleio. Tem muita gente que tende a votar na Marina, segundo as ltimas pesquisas, com sentimento de que  ela que tem melhores condies de derrotar a Dilma. Mas estou convencido de que o PT perdeu essas eleies. O sentimento de mudana  muito forte e muito enraizado hoje no Brasil. Quem for ao segundo turno vai vencer as eleies. Eu proponho uma mudana que se inicie no dia 1 de janeiro do ano que vem e que ocorrer ao longo dos quatro anos. Eu sou a mudana segura, numa linha correta do ponto de vista econmico, como quadros muito qualificados para melhorar a qualidade dos servios pblicos em todas as reas. No sei exatamente o que a outra candidatura significa. Ainda tenho hoje em algumas regies do Brasil, como o Nordeste, 60% de desconhecimento. As outras duas candidaturas esto prximas de 100% de conhecimento.

ISTO  O sr. acha que quem concorrer contra a Dilma ganha no segundo turno?
 Acio  Quem concorre contra a Dilma  presidente da Repblica. O PT perdeu essas eleies e ns temos duas alternativas: ns e a Marina. No duvido das boas intenes dela, mas a Marina  fruto desse mesmo sistema que hoje ela combate. Ela militou por 20 anos no PT.

ISTO  Essa insatisfao  com o governo, mas tambm no  uma insatisfao com a polarizao PT/PSDB?
 Acio  H dois componentes principais nas intenes de voto da Marina: uma  a negao da poltica, outra a insatisfao com essa polarizao. E uma outra parcela que quer derrotar o PT. S que derrotar o PT  apenas o incio da obra, no  a concluso da obra. Eu no quero estar daqui a quatro anos lamentando com o brasileiro uma nova opo equivocada, porque a inexperincia da Dilma no governo custou muito caro ao Brasil. Ento, o Brasil tem duas alternativas hoje. A nossa  experimentada, os quadros esto a e estamos sinalizando com muita clareza em que direo vamos. A outra trata a poltica como se fosse um balco de supermercado: vamos buscar os melhores, vamos pegar os melhores daqui, os melhores dali. Mas para ela avanar em qual direo? Respeito a Marina, mas at agora no teve que mostrar com clareza o que pretende fazer se vencer as eleies. E s boas intenes no resolvem os problemas do Brasil.

ISTO  A presidenta Dilma comparou Marina a Collor pela ausncia de uma estrutura partidria. O sr. v riscos semelhantes?
 Acio  No acho que a histria dela se parea com a do Collor. Mas a pregao da no poltica, sem uma palavra de valorizao e fortalecimento dos partidos  algo que me preocupa. A negao pura e simples da poltica  estranha, principalmente vindo da Marina, algum que militou tradicionalmente na poltica durante mais de 20 anos. Essas contradies tm que ser analisadas por todos ns. Qual  a Marina que vai governar?  a que acena em abraar o agronegcio ou aquela que em 1999 apresentou um projeto de lei para proibir o cultivo de transgnicos no Pas?  aquela que dentro do PT se submetia a esse corporativismo que impedia avano na gesto pblica ou  a que prope agora em seu governo a meritocracia?  a que acena para o presidente Fernando Henrique de um lado e para o Lula de outro, como se fosse possvel essa compatibilizao? Agora o brasileiro vai avaliar com consistncia, com profundidade, as alternativas que existem a.

ISTO  Sua campanha apostava mais no combate direto  presidenta Dilma. A partir de agora vai mirar mais no combate  Marina? 
 Acio  Sou oposio  Dilma, oposio ao PT. No circunstancialmente. Sou oposio desde sempre. Nunca acreditei nesse modelo que est a. Ento no abro mo da prerrogativa e da primazia oposicionista em relao ao modelo que est a. Mas o meu papel  mostrar tambm as fragilidades da candidatura de Marina. No do ponto de vista pessoal, pois a respeito, como respeito a Dilma do ponto de vista pessoal. Mas a Dilma fracassou. A inexperincia dela custou muito caro ao Brasil. O aprendizado do PT no governo da Dilma custou um tempo que no volta mais. Nossos indicadores sociais pioraram. Na economia  isso que ns estamos vendo hoje: um quadro de recesso, os investimentos deixaram de vir para o Brasil, um cemitrio de obras com sobrepreos e abandonadas ou paralisadas pelo Pas afora. O conjunto da obra do PT vai levlos a uma derrota. E eu quero conhecer com clareza, alm das platitudes do discurso da Marina, o que ela efetivamente pensa e como ela vai governar.

ISTO  O senador Agripino Maia disse que, em um eventual segundo turno entre Marina e Dilma, apoiaria Marina. Em So Paulo, o governador Geraldo Alckmin chegou a colocar em seu programa eleitoral o Beto Albuquerque, vice de Marina. O que est havendo com sua campanha?
 Acio  Em relao ao Agripino, que  do DEM, se disse isso eu lamento. O meu sentimento  de que vamos para o segundo turno e que chegaremos muito competitivos para ganhar as eleies. Acredito muito nisso, seno no estava fazendo campanha. Eu vou para a disputa at o final. Agora, o Geraldo Alckmin tem sido comigo extremamente correto e eu no tenho questionamento nenhum a fazer sobre sua posio. Ele recebe o apoio do PSB, fez essa aliana poltica,  importante para ele e desejo que ele tenha enorme sucesso, porque Geraldo fortalecido, a nossa campanha est fortalecida. Estou em terceiro lugar nas pesquisas, a 30 dias das eleies. Seria ruim se eu estivesse em terceiro lugar no dia da eleio. Acredito que no dia da eleio vou estar disputando o primeiro lugar.

ISTO  As pesquisas mostram que 43% dos eleitores de Alckmin esto votando em Marina. Isso no significa, no mnimo, uma falta de atuao poltica do PSDB paulista a seu favor?
Acio  No. O PSDB est mobilizado e o Geraldo tem feito a parte dele. Espero reverter esse quadro. Meu papel  mostrar que ns podemos derrotar o PT e, mais do que isso, fazer um governo que atenda s expectativas do brasileiro. Derrotar o PT  o incio da soluo do problema. Mas no podemos correr o risco de daqui a quatro anos experimentar a mesma frustrao que estamos vivendo agora.  

Participaram dessa entrevista os seguintes jornalistas: Caco Alzugaray, Carlos Jos Marques, Clayton Netz, Delmo Moreira, Eumano Silva, Gisele Vitria, Lus Artur Nogueira, Luiz Fernando S, Mrio Simas, Milton Gamez, Ricardo Boechat, Srgio Pardellas e Yan Boechat


4#4 EM BUSCA DOS INDECISOS
Primeira pesquisa ISTO/Sensus feita aps a morte de Eduardo Campos mostra que a disputa eleitoral permanece aberta e que Dilma, Acio e Marina Silva podem chegar ao segundo turno 

A primeira pesquisa ISTO/Sensus realizada depois da morte de Eduardo Campos mostra que, apesar de a candidatura de Marina Silva (PSB) ter atrado os votos daqueles que desejam mudanas no comando do Pas, a eleio presidencial ainda no est definida. Com menos de um ms de campanha, a ex-senadora do Acre soma 29,5% das intenes de voto no primeiro turno. Est empatada tecnicamente com a presidenta Dilma Rousseff (PT) e, em um hipottico segundo turno, Marina venceria Dilma, com 47,6% contra 32,8% dos votos vlidos. A mesma pesquisa, realizada entre os dias 1o e 4 de setembro com dois mil eleitores, porm, constatou que 44,4% dos brasileiros aptos a votar admitem a possibilidade de mudar o voto at a eleio. O nmero de pessoas que ainda se declaram indecisas, somado ao nmero de eleitores que admitem mudar de voto, corresponde a mais da metade do colgio eleitoral, avalia Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus. Isso revela que a corrida eleitoral deste ano ainda poder produzir algumas reviravoltas.

Segundo o diretor do Sensus, a comoo provocada pelo acidente que vitimou Eduardo Campos e a sensao de novidade com uma entrada inesperada na campanha favoreceram a ex-senadora, que j disputou a eleio nacional em 2010 e  bastante conhecida pelos eleitores. Esse efeito Marina, num primeiro momento, acabou tirando votos tanto da presidenta Dilma como do senador Acio Neves (PSDB). De acordo com a pesquisa, o tucano perdeu 6,2%, caindo para 15,2%, e a presidenta perdeu 3,9%, caindo para 29,8% (leia quadro). Para ambos, no entanto, a pesquisa revela algumas boas notcias. Acio  dos trs principais postulantes ao cargo de presidente o menos conhecido dos eleitores. Segundo a pesquisa realizada em 136 municpios de 24 Estados, quase 20% do eleitorado no conhece o senador mineiro. J a presidenta Dilma  conhecida por 90,8% dos eleitores e Marina Silva por 89%. O fato de Acio ser o menos conhecido dos trs significa que ele tem um maior potencial de crescimento entre os indecisos, desde que sua campanha seja capaz de levar uma mensagem que atraia o eleitor, afirma Guedes. Outra boa notcia para o tucano diz respeito  rejeio. De acordo com a pesquisa ISTO/Sensus, 31,5% dos eleitores no admitem votar em Acio. O nmero sobe para 44,3% quando a candidata  a presidenta Dilma Rousseff; e em relao a Marina, que est h menos de um ms em campanha, o ndice  de 22,3%. O histrico mostra que rejeies acima de 40% so impeditivos para a eleio, pondera Guedes.

Para a presidenta Dilma, a boa notcia vem acompanhada de um desafio difcil de ser superado. O nmero de eleitores que aprovam a sua atuao pessoal  frente do Palcio do Planalto saltou de 40,5% entre 9 e 12 de agosto para 46,3% na primeira semana de setembro. O desafio consiste em transformar essa aprovao em votos, pois no mesmo perodo a inteno de voto na candidata do PT caiu quase 4% e sua rejeio cresceu 2%. So incoerncias tpicas de um eleitorado que ainda est em busca de definies mais consistentes e que, portanto, pode provocar repentinas alteraes durante a campanha. Segundo Guedes, a morte de Eduardo Campos transformou essa eleio na disputa mais atpica desde a redemocratizao do Pas. Na lista estimulada, temos 23,5% de indecisos, brancos e nulos.  um nmero muito alto para o ms de setembro dos anos eleitorais, analisa o diretor do Instituto Sensus. Nas eleies presidenciais de 2002, 2006 e 2010 nesta poca medamos cerca de 15% de indecisos, brancos e nulos. Ou seja, estamos com 9% a mais do que tradicionalmente medamos nas eleies passadas.

A realizao da Copa do Mundo de Futebol no Brasil retardou o engajamento do eleitor com a disputa eleitoral. O que costumava acontecer no incio de julho acabou sendo adiado para agosto. E, quando o eleitor comeava a se definir, houve a troca da candidatura de Eduardo Campos pela de Marina Silva. Esses fatos obrigaram os principais partidos a promover mudanas em suas estratgias de campanha. Nas prximas semanas, de acordo com Guedes,  provvel que haja uma definio mais efetiva dos eleitores e as pesquisas consigam captar mais tendncias do que fotografias instantneas.

Guedes: "A eleio ainda no est definida porque o nmero de indecisos  muito alto"


4#5 COMO MARINA GANHA APOIOS
A candidata do PSB  Presidncia, Marina Silva, tenta ampliar alianas com setores que antes combatia
Claudio Dantas Sequeira (claudiodantas@istoe.com.br)

No incio dos anos 80, surgiu nos Estados Unidos a Rainbow Coalition, a coalizo arco-ris, que aglutinou militantes e intelectuais num poderoso movimento que privilegiava a ao poltica direta em detrimento da atuao partidria. Quem liderou a iniciativa foi o reverendo Jesse Jackson, que tentou chegar  Presidncia em 1984 e 1988. Tinha cunho progressista e pregava uma nova poltica, reunindo sob o slogan um amplo leque de interesses. No Brasil, uma articulao parecida surge agora pelas mos da candidata Marina Silva. Como Jackson, a presidencivel  um fenmeno que desafia analistas e assusta adversrios. Em duas semanas de campanha oficial, ultrapassou Acio Neves e emparelhou com Dilma Rousseff, vencendo em todas as simulaes de segundo turno. Sob ataques cada vez mais duros de tucanos e petistas, Marina se movimenta com rapidez no tabuleiro eleitoral.

NO CENTRO DAS ATENES - Mesmo atacada por todos os lados, Marina Silva consegue ampliar seu arco de alianas

Uma anlise detalhada dos atos oficiais de campanha ajuda a entender onde e como Marina tem buscado apoio para sua candidatura. Como dispe de pouco tempo para expor suas ideias at a eleio de outubro, a presidencivel concentra esforos. Alm de fincar o p em Pernambuco, para tentar alavancar seu nome na regio Nordeste, a candidata dedicou a maior parte da agenda a caminhadas, encontros e entrevistas  mdia no Sudeste. Esteve em So Paulo, onde lanou o programa de governo, e tambm no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, terra do vice, Beto Albuquerque. A aposta foi certeira. Nas pesquisas, Marina abriu vantagem sobre Dilma e Acio justamente nos dois maiores colgios eleitorais do Pas.

Na capital gacha, Marina foi estender a mo ao agronegcio, um dos setores mais resistentes  candidata. Ao lado de Beto, visitou na quinta-feira 4 uma feira agropecuria na regio metropolitana de Porto Alegre. Os dois tambm se reuniram, por mais de uma hora, com dirigentes do segmento na sede da Federao da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), onde discutiram temas sensveis como a demarcao de terras indgenas, o cdigo florestal e os transgnicos. Os representantes do agronegcio disseram que foi muito bom ouvirem minhas propostas por mim mesma, no pelo que liam ou ouviam falar, afirmou.

Marina repetiu o que consta em seu programa de governo. Defendeu a fuso das polticas florestal, fundiria e da pesca em um mesmo Ministrio da Agricultura, e a priorizao das obras de infraestrutura logstica para atender o agronegcio, com destaque para a construo de ferrovias, portos e sistemas de armazenagem. Esse foi o segundo evento ligado ao agronegcio nesse pouco tempo de campanha. No dia 28, Marina participou da Fenasucro, tradicional feira de tecnologia sucroalcooleira, em Sertozinho, no interior paulista. Em discurso, atacou a falta de planejamento de longo prazo para o setor energtico e elogiou a produo local de energia a partir de bagao e da palha da cana, como um exemplo a ser seguido pelo restante do Pas. Foi aplaudida.

A agenda de compromissos de Marina tem sido discutida diariamente pela coordenao de campanha. Discursos e imagens so sempre gravados e editados para o programa eleitoral na tev. A ideia  dar a dimenso da amplitude de acordos feitos pela candidata, procurando desfazer a pecha de uma Marina radical e intransigente. O mesmo raciocnio tem sido usado para reforar o comprometimento da candidata com a manuteno de polticas sociais  populao de baixa renda. Sempre que pode, Marina lembra sua sofrida trajetria de menina pobre criada num seringal no Acre, o que funciona como uma espcie de selo de pobreza. Se o PT de Dilma conseguia colar em Acio boatos sobre o fim do Bolsa Famlia, com Marina a estratgia no surte efeito. Alm de garantir que vai manter o programa, a candidata prometeu estender o benefcio a mais dez milhes de brasileiros que ganham at meio salrio mnimo. Foi para falar ao eleitorado nordestino, que mais depende dos programas sociais, que Marina visitou o Centro de Tradies Nordestinas numa de suas incurses em So Paulo.

O comando de campanha de Marina prev para os prximos dias coloc-la em contato com os evanglicos, pblico importante de sua base de sustentao. Esse encontro j deveria ter acontecido, mas foi suspenso aps a repercusso negativa do episdio envolvendo a divulgao de uma verso do programa de governo com artigo de apoio  unio homoafetiva. O artigo foi retirado aps queixas pblicas do pastor Silas Malafaia, o que provocou a reao dos movimentos LGBT. Marina atribuiu o problema a uma falha processual na editorao do programa, mas o estrago foi feito e deixou patente a opo dela por uma agenda moral absolutamente conservadora. Essa agenda repele igualmente a legalizao do aborto, a descriminalizao da maconha e, obviamente, o casamento gay, ressalta o cientista poltico Antonio Lavareda. Curiosamente, a mesma Marina conservadora esbanja um charme de candidata antissistema que  escolhida pelos jovens que se contrapem ao atual modelo poltico, diz.

Os protestos que tomaram as ruas do Pas em junho de 2013 foram convocados pelos jovens, os mesmos que agora preferem votar em Marina. Mas esses mesmos eleitores so a favor do casamento gay, da legalizao do aborto e da descriminalizao da maconha. Apesar de Marina ter ideias conservadoras sobre esses temas, ela no perde os jovens e ainda ganha o pblico evanglico, que costuma decidir seu voto baseado numa agenda moral ortodoxa que repele qualquer liberalizao. A presidencivel concentra tambm o voto nacionalista do eleitor do PSB, enquanto carrega as expectativas liberalizantes dos agentes do mercado financeiro e de grande parte da indstria. Essa estranha capacidade de se manter acima de tamanhas divergncias, mesmo sem neg-las, faz com que Marina atraia para si o voto dos ambientalistas e do agronegcio ou dos nacionalistas e dos liberais. Cores, credos e orientaes convergem numa s direo, quando deveriam se anular. O que os une  um nico sentimento: o da mudana. Por quanto tempo ela conseguir manter essa espcie de coalizo  uma incgnita.


4#6 A FORA DA TRAGDIA
Embalado pelo efeito da comoo, provocado pela morte de Eduardo Campos, o candidato do PSB ao governo de Pernambuco, Paulo Cmara, cresceu 23 pontos e passou de azaro a favorito na disputa
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)

At o dia 13 de agosto, o senador e candidato do PTB ao governo de Pernambuco, Armando Monteiro, considerava a corrida pelo Palcio das Princesas como favas contadas. O otimismo de Monteiro estava calcado em pesquisas eleitorais que pontuavam seu nome como o preferido de 47% dos eleitores. Seu principal adversrio, Paulo Cmara (PSB), amargava um segundo lugar distante, com 13% das intenes. Mas uma varivel, totalmente escapvel s projees de marqueteiros e cientistas polticos, revirou o cenrio eleitoral. A tragdia que tirou a vida de Eduardo Campos transformou o ex-governador em um imbatvel cabo eleitoral. Movidos pela comoo, os eleitores pernambucanos migraram em massa para as campanhas dos candidatos que recebiam o apoio de Campos. Em trs semanas, Paulo Cmara cresceu 23 pontos percentuais na sondagem de votos e passou da condio de azaro a favorito. Ele e Monteiro esto empatados com 36%, de acordo com a pesquisa do Datafolha. O candidato do PSB ao Senado, Fernando Bezerra, tambm melhorou seu desempenho e subiu oito pontos na pesquisa.

ASCENSO METERICA - Paulo Cmara, em trs semanas, transformou-se no mais cotado para vencer a eleio

Os aliados de Campos conseguiram agregar em forma de inteno de voto o sentimento de preservao do legado do ex-governador cultivado desde a morte de Campos. Derrames de imagens em santinhos, camisetas, faixas e cartazes transformam o falecido lder do PSB na figura mais presente da campanha. A dor da morte  sinalizada pelas fitas pretas de luto que estrategicamente compem as ilustraes. At mesmo os adversrios tentam lembrar em suas propagandas o histrico de aproximao com o ex-governador. Mas o PSB recorreu  Justia para impedir a citao do nome ou utilizao da imagem do poltico morto no dia 13 de agosto por qualquer candidato que no seja do PSB. A campanha de Monteiro, porm, conseguiu uma liminar para continuar usando as referncias ao adversrio morto. Eles criaram uma espcie de 11 mandamento. A bblia probe falar o nome de Deus em vo, mas aqui querem proibir de falar o nome de Eduardo Campos. Isso  censura prvia, protestou o advogado do PTB, Walber Agra. 

